Um vídeo nas redes diz que a “nova caneta” faz perder 30% do peso. Uma conhecida conta que já conseguiu a dela no Paraguai. E a pergunta chega pronta ao consultório: qual é a melhor?
A curiosidade faz sentido. Os remédios para obesidade mudaram muito em poucos anos, e os nomes parecidos confundem. Aqui você entende o que diferencia cada um, o que os estudos mostram e por que uma dessas três ainda não pode ser usada.
Retatrutida, tirzepatida e semaglutida: o que são?
Semaglutida, tirzepatida e retatrutida pertencem a uma nova geração de medicamentos que atuam sobre hormônios envolvidos no controle da fome, da saciedade e da glicose. A principal diferença entre elas está justamente nos receptores que cada molécula ativa: a semaglutida age sobre o GLP-1, a tirzepatida combina GLP-1 e GIP, e a retatrutida foi desenvolvida para atuar sobre GLP-1, GIP e glucagon.
Depois de uma refeição, o intestino libera sinais hormonais que ajudam o cérebro a perceber a saciedade e participam do controle da glicose pelo organismo. Esses medicamentos reproduzem ou potencializam parte desses sinais, fazendo com que essa resposta permaneça ativa por mais tempo.
Três hormônios entram nessa conversa:
- GLP-1: reduz o apetite, retarda o esvaziamento gástrico e participa do controle da glicose.
- GIP: também atua na resposta à glicose e, quando associado ao GLP-1, pode ampliar o efeito sobre o peso.
- Glucagon: participa do metabolismo energético e da mobilização de reservas de energia.
Cada medicação combina esses mecanismos de uma forma diferente. É isso que ajuda a explicar diferenças de eficácia, efeitos colaterais e indicação entre elas.
Semaglutida (Ozempic e Wegovy): a mais estudada
A semaglutida age só no receptor do GLP-1 e é aplicada uma vez por semana. No Brasil, é vendida como Ozempic, indicado para diabetes tipo 2, e Wegovy, indicado para obesidade.
No estudo STEP 1, adultos com obesidade ou sobrepeso sem diabetes perderam em média 14,9% do peso em 68 semanas com a dose de 2,4 mg, contra 2,4% no grupo placebo.
A semaglutida também tem um dado importante para o coração. No estudo SELECT, com mais de 17 mil pessoas com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular prévia, sem diabetes, o risco de morte cardiovascular, infarto ou AVC caiu 20% em relação ao placebo.
Em março de 2026, a patente da semaglutida caiu no Brasil. Em agosto, a Anvisa aprovou os primeiros genéricos. Mais concorrência tende a ampliar o acesso, mas a regra de prescrição continua a mesma.
Tirzepatida (Mounjaro): dois hormônios ao mesmo tempo
A tirzepatida age nos receptores do GLP-1 e do GIP. Também é semanal e chegou ao Brasil como Mounjaro, primeiro para diabetes tipo 2. Em junho de 2025, a Anvisa aprovou o uso para obesidade, e para sobrepeso quando há pelo menos uma doença associada ao peso.
No estudo SURMOUNT-1, adultos com obesidade sem diabetes perderam em média 20,9% do peso em 72 semanas com a dose de 15 mg.
O dado mais citado vem do SURMOUNT-5 o primeiro estudo que colocou as duas medicações frente a frente. Em 72 semanas, quem usou tirzepatida perdeu em média 20,2% do peso, contra 13,7% com semaglutida. O abandono do tratamento por efeitos gastrointestinais também foi menor com tirzepatida: 2,7% contra 5,6%.
Esse resultado não faz da tirzepatida a escolha certa para todo mundo. Histórico de saúde, tolerância, outras medicações em uso e objetivos entram na decisão.
Retatrutida: por que ainda não dá para usar
A retatrutida é a primeira a agir nos três receptores: GLP-1, GIP e glucagon. Por isso ganhou o apelido de “triplo G”. É desenvolvida pela Lilly, a mesma farmacêutica do Mounjaro, e ainda está em fase de estudos.
Os resultados chamam atenção. No estudo TRIUMPH-1, quem manteve o tratamento com a dose de 12 mg perdeu em média 28% do peso em 80 semanas. Em pessoas com obesidade e diabetes tipo 2, a média ficou em 21%. Em quem também tinha doença cardiovascular, em 23%.
Mas os mesmos estudos mostram pontos que ainda precisam de resposta:
- Mais efeitos gastrointestinais nas doses altas, como enjoo, diarreia, prisão de ventre e vômito.
- Disestesia, uma alteração na sensibilidade da pele (formigamento, ardência, pele sensível ao toque), relatada por cerca de 1 em cada 5 participantes na dose de 12 mg no estudo TRIUMPH-4.
- Mais abandono por efeitos adversos na dose mais alta: 18,2%, contra 4% no grupo placebo, no mesmo estudo.
- Segurança cardiovascular a longo prazo ainda em análise.
A Lilly prevê pedir aprovação à agência americana no primeiro trimestre de 2027. Até lá, e até uma eventual análise da Anvisa, não existe retatrutida legal à venda.
E a retatrutida que já está sendo vendida?
Em julho de 2026, a Anvisa emitiu um alerta: a retatrutida não está aprovada em nenhum lugar do mundo, e qualquer produto vendido hoje com esse nome é irregular. Esses produtos vêm sendo anunciados em sites e redes sociais e apreendidos nas fronteiras como contrabando.
Sem registro, não há controle de fabricação, pureza, dose, armazenamento ou rastreio de efeitos adversos. Você não tem como saber o que está dentro da caneta. Vender medicamento irregular é crime previsto no Código Penal.
As três lado a lado
| Semaglutida | Tirzepatida | Retatrutida | |
|---|---|---|---|
| Nomes comerciais no Brasil | Ozempic, Wegovy e genéricos | Mounjaro | Nenhum (experimental) |
| Hormônios em que atua | GLP-1 | GLP-1 e GIP | GLP-1, GIP e glucagon |
| Situação na Anvisa | Registrada | Registrada | Sem registro |
| Aplicação | Semanal | Semanal | Semanal (nos estudos) |
| Perda média de peso em estudo de referência | 14,9% em 68 semanas (STEP 1) | 20,9% em 72 semanas, dose de 15 mg (SURMOUNT-1) | 28% em 80 semanas, dose de 12 mg, entre quem manteve o tratamento (TRIUMPH-1) |
| Receita | Retida na farmácia | Retida na farmácia | Não pode ser prescrita |
Dá para comparar esses números?

Só com cuidado. Cada estudo reuniu pessoas diferentes, por tempos diferentes e com formas diferentes de calcular o resultado. Uma média de estudo também não é o resultado de uma pessoa: há quem perca mais, há quem perca menos e há quem precise interromper.
A única comparação direta disponível é entre tirzepatida e semaglutida, no SURMOUNT-5. A retatrutida ainda não foi comparada frente a frente com nenhuma das duas em pessoas com obesidade.
O que o remédio não resolve sozinho
A medicação ajuda a reduzir a fome e o peso. O que acontece com o corpo nesse processo depende de acompanhamento.
Massa muscular. Parte do peso perdido pode vir dos músculos. Proteína suficiente e treino de força entram no plano desde o início.
Pele e cabelo. Quando o peso cai rápido, a pele nem sempre acompanha, e a flacidez na barriga aparece com frequência. A queda de cabelo após o emagrecimento também é comum, mas quando temos uma dieta ajustada e com os nutrientes necessários, ela é muito menos frequente.
O que acontece ao parar. Estudos com semaglutida e tirzepatida mostram que parte dos pacientes volta a ganhar peso após a suspensão do tratamento. No STEP 1, por exemplo, os participantes recuperaram em média cerca de dois terços do peso perdido um ano após a retirada da semaglutida.
O que acontece ao parar. Estudos com semaglutida e tirzepatida mostram que parte dos pacientes volta a ganhar peso após a suspensão do tratamento. No STEP 1, por exemplo, os participantes recuperaram em média cerca de dois terços do peso perdido um ano após a retirada da semaglutida.
Esse dado reforça por que a fase de manutenção é tão importante quanto a perda de peso. Ao longo do tratamento, trabalhamos alimentação, composição corporal, relação com a comida, rotina de exercícios e estratégias para sustentar o resultado.
Como a CBV acompanha o tratamento
No Núcleo de Nutrologia e Metabologia da CBV, o tratamento começa com exames, bioimpedância e avaliação da composição corporal. A partir daí, a equipe define a estratégia, acompanha a resposta, ajusta a medicação quando necessário e trabalha em conjunto com nutricionistas, fisioterapeutas e outros especialistas da clínica.
Ao longo do processo, o foco não está apenas na perda de peso, mas também na preservação de massa muscular, na alimentação, na prevenção de deficiências e nas mudanças que podem surgir durante o emagrecimento.
E o cuidado não termina quando o paciente atinge o objetivo. A fase de manutenção também faz parte do tratamento, com acompanhamento e ajustes para sustentar o resultado ao longo do tempo.
Perguntas frequentes
A retatrutida já foi aprovada no Brasil? Não. A retatrutida não tem aprovação da Anvisa nem de nenhuma outra agência no mundo. Qualquer produto vendido com esse nome hoje é irregular.
Posso trocar Ozempic por Mounjaro? A troca é possível em alguns casos, mas depende da resposta ao tratamento, dos efeitos que você teve e do seu histórico. Não faça a troca por conta própria: as doses das duas medicações não são equivalentes.
A caneta do Paraguai é igual à vendida no Brasil? Não há como saber. Produtos sem registro ficam fora de qualquer controle de qualidade. A própria Lilly informou já ter encontrado contaminação bacteriana e impurezas em canetas falsificadas para obesidade.
Genérico de semaglutida funciona igual ao Ozempic? Para receber registro como genérico, o medicamento precisa comprovar equivalência com o original, na mesma concentração e forma. A prescrição e a receita retida continuam obrigatórias.
Quanto tempo preciso usar? Não existe um prazo único. Obesidade é uma doença crônica, e o tempo de uso, a dose de manutenção e a forma de retirada são definidos no acompanhamento médico.
Converse com a Equipe de Nutrologia da CBV
Na CBV Clínica, nossa equipe de Nutrologia acompanha o tratamento de forma completa, desde a avaliação inicial até a fase de manutenção.
Contamos com profissionais experientes e uma estrutura multidisciplinar para cuidar não apenas da perda de peso, mas também da composição corporal, da alimentação, da preservação de massa muscular e da saúde ao longo de todo o processo.
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